Lembro-me claramente de um teste de elenco há cerca de dez anos. O produtor pedia que o modelo segurasse um frasco de perfume, olhasse para o horizonte com um ar de mistério e esperasse o clique do fotógrafo de revista. Era uma pose estática, quase teatral. Hoje, se você entrar em um estúdio de uma grande varejista brasileira, a cena é completamente diferente. Não há espaço para o “olhar de mistério” se você não souber como se mover para mostrar o caimento de uma calça jeans em um vídeo de seis segundos para um anúncio de rede social.
A ditadura da versatilidade técnica
O e-commerce mudou as regras do jogo. Antes, o foco era quase exclusivamente na estética do rosto e na proporção do corpo para editoriais de moda. Agora, o mercado busca o que chamamos de “modelo comercial híbrido”. As marcas não querem apenas alguém que vista bem a roupa; elas precisam de alguém que entenda a dinâmica da peça em movimento.
O que é casting e qual a sua importância no mercado de moda e publicidade
Recentemente, acompanhei uma sessão de fotos para uma marca de roupas esportivas. A modelo não precisava apenas parar diante da câmera. Ela tinha que executar movimentos reais — um agachamento, um alongamento, um giro — enquanto mantinha a expressão facial natural e a roupa perfeitamente alinhada. O fotógrafo não buscava a “pose perfeita” de catálogo, mas sim a fluidez. O talento atual precisa dominar a própria expressão corporal sob pressão, sabendo que aquele conteúdo será recortado, editado e inserido em um carrossel de fotos ou em um vídeo de trinta segundos que aparecerá no feed de um potencial comprador.
A democratização e a exigência do portfólio
Antigamente, um book fotográfico era um objeto de luxo, algo que você levava embaixo do braço para as agências. Atualmente, o portfólio é dinâmico. O mercado de e-commerce exige que o modelo seja, em certa medida, um produtor de conteúdo. Não estou falando de ser um influenciador com milhões de seguidores, mas de ter um material que comprove sua capacidade de atuar em diferentes frentes: o vídeo de catálogo, o provador de loja, a campanha de impacto e até mesmo o conteúdo para redes sociais.
Essa mudança criou uma nova barreira de entrada. Agências de modelos, que antes atuavam apenas como “agenciadores” de castings, hoje funcionam como verdadeiras aceleradoras. Elas avaliam se o talento tem a capacidade de transitar entre o fashion, onde a postura é mais contida, e o comercial, onde a empatia e a conexão com a câmera são essenciais. Se você não consegue projetar naturalidade enquanto interage com um produto, dificilmente passará na triagem inicial de um grande e-commerce.
O papel da agência na curadoria de talentos
Muitos iniciantes chegam aos estúdios achando que a beleza é o único passaporte. A verdade é que o mercado publicitário atual é impiedoso com quem não tem técnica de atuação ou presença diante das câmeras. O casting hoje é muito mais analítico. Os diretores de arte buscam “perfis reais” — pessoas que pareçam acessíveis, que tenham uma pele que não precise de retoques excessivos e, principalmente, que saibam seguir instruções rápidas em um set de produção acelerada.
A preparação profissional agora passa por entender a luz, o ângulo e o tempo de resposta. Um bom modelo de e-commerce sabe exatamente quando deve inclinar o corpo para que a luz valorize o tecido da roupa ou quando deve sorrir para transmitir confiança sem parecer um robô. Essa é a nova habilidade de ouro. Não se trata apenas de ser bonito, mas de ser um resolvedor de problemas para a marca. Quando você entra em um set e entende que sua função é vender aquele produto através do movimento e da atitude, você deixa de ser apenas uma imagem e passa a ser uma ferramenta essencial na engrenagem do comércio digital. O sucesso, portanto, migrou da passividade do modelo para a proatividade técnica do profissional que entende o ambiente onde trabalha.